Noites mal dormidas podem deixar o cérebro mais vulnerável ao estresse, aponta estudo

Foto: Giro 10

 A qualidade do sono parece ter um papel decisivo na forma como o cérebro reage a situações de estresse. É o que sugere um novo estudo publicado nesta segunda-feira (07/09) ontem, na revista JNeurosci, que investigou a relação entre a atividade cerebral durante o sono não REM (movimento rápido dos olhos) e a capacidade de lidar com experiências sociais estressantes. A pesquisa foi liderada pela Morehouse School of Medicine, nos Estados Unidos.

Segundo o estudo, o sono não REM representa a maior parte do período de descanso dos adultos e está associado a processos restauradores do organismo. Dentro dessa fase, o chamado sono de ondas lentas, ou profundo, é considerado especialmente importante para a recuperação cerebral. Embora já se soubesse que ele está ligado à resiliência diante do estresse, os mecanismos cerebrais responsáveis por essa relação ainda não eram totalmente compreendidos.

Para investigar o fenômeno, os pesquisadores utilizaram modelos animais e se concentraram na análise no córtex pré-límbico, uma região cerebral envolvida na contextualização das respostas emocionais. Durante o sono, foi observada uma redução da atividade dos neurônios nessa área, um processo característico do estado de repouso cerebral.

O resultado mais significativo foi a associação entre o grau de supressão da atividade no córtex pré-límbico durante o sono profundo e a capacidade dos animais de resistir aos efeitos comportamentais de experiências estressantes. Quanto mais pronunciado era o silenciamento dos neurônios durante o sono de ondas lentas, maior parecia ser a resiliência apresentada pelos camundongos.

Os pesquisadores também identificaram mudanças na atividade neural depois que os animais foram submetidos a situações de estresse. Houve uma reorganização da atividade no córtex pré-límbico, com uma redistribuição da velocidade de disparo dos neurônios. A alteração sugere que o cérebro não apenas responde ao estresse, mas também modifica sua dinâmica neural após a experiência.

Para Christopher Ehlen, primeiro autor do estudo, os resultados indicam que a qualidade do sono pode influenciar diretamente a capacidade do córtex pré-límbico de controlar respostas emocionais. Segundo o pesquisador, essa regulação estaria relacionada à taxa de disparo dos neurônios.

A hipótese levantada pela equipe é que animais mais suscetíveis aos efeitos do estresse tenham um sono menos profundo. Já nos considerados resilientes, o sono profundo poderia preservar uma resposta neural capaz de limitar ou regular os efeitos emocionais provocados pelo estresse.

Redes neurais

O psiquiatra e professor de medicina do Ceub, Lucas Benevides, destaca que o sono é fundamental para a regulação emocional e para o bom funcionamento das funções cognitivas. “É durante esse período que o cérebro consolida memórias e aprendizados, além de manter a integridade das redes neurais. Um sono de boa qualidade também reduz os níveis de ansiedade. Por isso, quem dorme bem tende a ter mais flexibilidade mental e a lidar melhor com as emoções diante dos desafios do dia a dia.” 

A psicóloga Cláudia Melo, do Rio de Janeiro, detalha que a falta de sono pode aumentar a irritabilidade, a impaciência e a reatividade emocional, além de prejudicar a atenção, a concentração e a tomada de decisão. “Existe algo muito importante: cansados, nós não apenas sentirmos mais dificuldade para resolver um problema. Podemos também perceber esse problema de uma maneira diferente, mais ameaçadora ou mais difícil de administrar.”

Segundo ela, na ansiedade essa questão fica muito evidente. “A pessoa está preocupada e não dorme. No dia seguinte, está cansada, mais sensível emocionalmente e com menos recursos para lidar com aquilo que já a preocupava. Chega a noite, a cabeça continua acelerada, e ela novamente não consegue dormir. É uma relação de mão dupla: a ansiedade pode tirar o sono, e a falta de sono pode alimentar a ansiedade. Quando esse ciclo se instala, precisamos olhar para os dois lados.”

O próximo passo da pesquisa será testar essa hipótese de maneira mais direta. Os cientistas pretendem avaliar se a privação de sono em camundongos que demonstram resiliência ao estresse provoca alterações na atividade neuronal do córtex pré-límbico e, consequentemente, modifica seu comportamento diante de novas experiências estressantes.

Embora os resultados tenham sido obtidos em animais, os pesquisadores esperam que as descobertas possam contribuir para futuras investigações em humanos. A expectativa é identificar marcadores neurobiológicos capazes de indicar maior resiliência ou, ao contrário, maior suscetibilidade aos efeitos do estresse.