Pesquisa associa consumo de álcool na adolescência a efeitos comportamentais na vida adulta

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O consumo excessivo de álcool durante a adolescência pode provocar alterações comportamentais que persistem até a vida adulta. Em experimentos com camundongos, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) observaram que animais expostos a altas doses de álcool enquanto o cérebro ainda estava em desenvolvimento apresentaram maior tendência a tomar decisões de risco quando adultos.

Em parte dos animais, a exposição ao álcool durante a adolescência também foi associada ao aumento do consumo da substância na fase adulta.

A pesquisa foi realizada na Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e resultou em dois artigos científicos publicados nas revistas Alcohol: Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.

Para avaliar os efeitos do álcool nessa fase do desenvolvimento, os pesquisadores administraram doses da substância a camundongos durante a adolescência. O protocolo buscou reproduzir episódios de consumo excessivo, conhecidos como binge drinking, caracterizados pela ingestão de grandes quantidades de álcool em um curto período.

Cada animal recebeu quatro aplicações ao longo da adolescência. Segundo Karina Possa Abrahão, professora do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp e coordenadora do estudo, as doses foram ajustadas considerando a duração da vida dos animais. Em uma comparação aproximada, a exposição corresponderia, em humanos, a cerca de dois episódios de intoxicação por mês durante a adolescência.

Os efeitos observados variaram conforme o sexo dos animais e o período em que ocorreu a exposição. Entre os machos que receberam álcool no início da adolescência, os pesquisadores identificaram maior tendência a decisões de risco na vida adulta.

Entre as fêmeas, esse comportamento não foi observado. No entanto, as que foram expostas ao álcool precocemente apresentaram maior consumo da substância quando tiveram acesso a ela na fase adulta.

Quando a exposição ocorreu no fim da adolescência, tanto machos quanto fêmeas apresentaram alterações na avaliação de riscos na vida adulta. Para os pesquisadores, os resultados indicam que o consumo excessivo de álcool nessa fase pode interferir no processo de amadurecimento do cérebro.

Cérebro ainda está em desenvolvimento

A adolescência é considerada uma fase de maior vulnerabilidade aos efeitos do álcool porque o cérebro ainda está em processo de desenvolvimento. Entre as últimas regiões a amadurecer está o córtex pré-frontal, associado à tomada de decisões e ao controle dos impulsos. Nos seres humanos, esse processo pode continuar até aproximadamente os 25 anos.

No Brasil, a venda e o fornecimento de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos são proibidos.

Dados do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira apontam que 5% dos adolescentes de 12 a 17 anos tiveram pelo menos um episódio de consumo excessivo de álcool em um período de 30 dias. Entre jovens de 18 a 24 anos, o percentual chegou a 20,5%.

Os pesquisadores ressaltam que os resultados foram obtidos em modelos animais e ajudam a compreender possíveis impactos do consumo excessivo de álcool durante o desenvolvimento cerebral.