O que parecia ser apenas mais uma picada de carrapato transformou os primeiros meses de aposentadoria de John Reagan em um drama. Aos 66 anos, o farmacêutico aposentado retirou o pequeno parasita da própria pele no início de maio e, naquele momento, não imaginava que o episódio poderia levá-lo a um quadro grave semanas depois.
Morador de Concord, em New Hampshire, nos Estados Unidos, Reagan sempre gostou de atividades ao ar livre. Caçar, pescar e fazer longas caminhadas acompanhado dos cachorros dos filhos — chamados por ele de “netos caninos” — faziam parte de sua rotina.
Acostumado a viver em uma região onde a doença de Lyme é conhecida, ele sabia dos riscos relacionados aos carrapatos. Como retirou o parasita pouco depois de chegar em casa, acreditou que estivesse protegido.
O que Reagan não sabia era que nem todas as doenças transmitidas por carrapatos precisam de muitas horas para passar ao ser humano.
SINTOMAS COMEÇARAM SEMANAS DEPOIS
Algumas semanas após o episódio, o aposentado começou a apresentar sintomas semelhantes aos de uma gripe: dor de cabeça, dores pelo corpo, febre, náuseas e diarreia.
Em meados de maio, procurou um serviço de emergência. Os médicos não conseguiram identificar a causa do problema e Reagan voltou para casa depois de receber líquidos e medicamentos contra o enjoo.
O quadro, no entanto, piorou rapidamente.
A esposa chegou a acreditar que ele estivesse sofrendo um derrame. Ao retornar ao hospital, Reagan já enfrentava uma situação assustadora: perdeu a capacidade de falar, de se movimentar e até de abrir os olhos.
Os primeiros exames não apontaram a causa. A família então levantou uma hipótese: poderia haver alguma relação com aquele carrapato retirado semanas antes? Inicialmente, segundo o relato, essa possibilidade foi descartada.
DIAGNÓSTICO REVELOU VÍRUS RARO
Diante da gravidade do quadro, Reagan foi transferido para o Massachusetts General Hospital, em Boston, onde passou por uma série de exames, incluindo testes específicos para doenças transmitidas por carrapatos.
Uma amostra de sangue foi encaminhada a um laboratório especializado da Clínica Mayo.
No dia 9 de junho, veio a resposta que a família jamais esperava: Reagan havia sido infectado pelo vírus Powassan, doença rara e potencialmente grave transmitida por carrapatos.
O diagnóstico trouxe ainda uma descoberta preocupante. Diferentemente da doença de Lyme, cuja transmissão geralmente exige um período prolongado de fixação do carrapato na pele, o vírus Powassan pode ser transmitido em cerca de 15 minutos.
Ou seja: ter retirado rapidamente o carrapato não foi suficiente para impedir a infecção.
Até aquele momento, Reagan e seus familiares sequer tinham ouvido falar da doença.
DOENÇAS TRANSMITIDAS POR CARRAPATOS AVANÇAM NOS EUA
O caso ocorre em meio ao aumento da preocupação com carrapatos e as doenças transmitidas por esses parasitas nos Estados Unidos.
A doença de Lyme continua sendo a mais conhecida, com estimativas de quase meio milhão de casos por ano, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).
Outros problemas também chamam atenção, entre eles a síndrome alfa-gal, uma alergia a carne e outros produtos de origem animal que pode surgir após a picada de determinadas espécies de carrapatos.
O vírus Powassan permanece muito mais raro, mas os registros vêm crescendo.
“Há mais carrapatos em mais lugares”, afirmou o microbiologista Stephen Rich, da Universidade de Massachusetts Amherst. “Sempre que há mais de algo, mais vetores, inevitavelmente haverá mais patógenos.”
Em 2025, os Estados Unidos registraram 76 casos humanos da doença provocada pelo vírus Powassan, o maior número já relatado no país. Dez pacientes morreram.
O drama vivido por John Reagan chama atenção para um risco pouco conhecido: uma picada aparentemente simples e rapidamente esquecida pode, em casos raros, transmitir uma infecção grave em poucos minutos.