Ataque dos “nove dedos” expõe preconceito, ultrapassa Lula e atinge milhões de brasileiros

Foto: EPA

Durante o debate presidencial realizado pela TV Globo, na noite desta sexta-feira (23), Flávio Bolsonaro atacou Luiz Inácio Lula da Silva ao chamá-lo de “nove dedos”, numa referência à perda de um dos dedos da mão esquerda do presidente em um acidente de trabalho. A expressão retrata preconceito e uma tentativa de desqualificar o adversário.

A frase pretendia atingir Lula no calor do confronto eleitoral, mas ultrapassou os limites da disputa entre dois adversários políticos. Ela alcança também milhões de brasileiros que carregam no próprio corpo as marcas de um acidente, de uma doença ou de qualquer outra circunstância que tenha provocado a perda de um membro ou deixado uma sequela permanente.

DOR FÍSICA E IMPACTO EMOCIONAL

São pessoas que precisaram aprender a conviver não apenas com a dor física, mas também com o impacto emocional de uma transformação definitiva em suas vidas.

Há traumas que o tempo consegue amenizar. Outros são incorporados à existência porque simplesmente não podem ser apagados. A pessoa segue em frente, trabalha, constitui família, realiza sonhos e aprende a conviver com a própria história.

Mas uma cicatriz aparentemente fechada pode voltar a doer quando aquilo que representa uma perda física se transforma em instrumento de deboche, achincalhe ou tentativa de desqualificação.

É por isso que o episódio não pode ser reduzido a mais uma troca de ataques de campanha.

SEQUELA

Quando alguém utiliza uma deficiência, uma sequela ou uma característica física para diminuir o adversário, abandona o terreno em que uma disputa política deveria ser travada: o confronto de ideias, propostas, realizações, erros e projetos para o País.

Desqualificar uma pessoa por sua condição física empobrece o debate e substitui argumentos políticos por ataques pessoais. Em momentos de divergência e conflito, é justamente a capacidade de enfrentar o adversário no campo das ideias que deveria prevalecer.

Flávio Bolsonaro reconheceu o erro e pediu desculpas. O pedido é importante, mas não consegue apagar imediatamente o alcance das palavras pronunciadas diante de milhões de brasileiros.

O uso da expressão “nove dedos” também chama atenção para um problema mais amplo: preconceitos que muitas vezes permanecem escondidos podem emergir justamente nos momentos de irritação, disputa ou confronto, quando uma característica pessoal é transformada em arma para ferir o outro.

Lula pode ser criticado por suas decisões, propostas, políticas públicas, alianças, erros ou posições. Esse é o território legítimo do debate democrático.

A ausência de um dedo, porém, não é argumento político.

É uma marca de sua história — assim como milhões de brasileiros carregam, silenciosamente, as marcas das suas próprias histórias.

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