Como uma empresa cujo proprietário declarava faturamento anual de apenas R$ 12 mil passou a movimentar quase R$ 9 milhões em apenas oito meses. É essa diferença que está entre os pontos centrais de uma investigação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) sobre possíveis fraudes em licitações e lavagem de dinheiro envolvendo contratos para realização de eventos.
O repórter Carlos Silva destaca, no Jornal Alerta Geral, as apurações que deram origem à Operação Saque a Descoberto, deflagrada na última segunda-feira (14) e que continua em andamento. O trabalho é conduzido pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), com apoio da Polícia Civil.
As investigações alcançam contratos firmados pela empresa com dezenas de municípios do Ceará e de outros estados do Nordeste. O MPCE busca esclarecer a movimentação dos recursos e as circunstâncias das contratações relacionadas ao setor de eventos.
R$ 12 MIL DECLARADOS E R$ 8,9 MILHÕES MOVIMENTADOS
O ponto de partida da investigação foi um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O documento apontou movimentações consideradas atípicas relacionadas a uma empresa do ramo de eventos sediada no Interior do Ceará.
Segundo as informações divulgadas pelo MPCE, o proprietário declarava faturamento anual de R$ 12 mil. Em um período de apenas oito meses, entretanto, a empresa teria movimentado aproximadamente R$ 8,9 milhões.
A discrepância chamou a atenção dos órgãos de investigação e passou a ser objeto de apuração.
CONTRATOS COM PREFEITURAS ENTRAM NA MIRA
Levantamento realizado a partir de informações do Tribunal de Contas do Estado (TCE) apontou que a empresa teria firmado contratos com dezenas de municípios cearenses e de outros estados nordestinos entre 2020 e o primeiro semestre de 2026.
Somente nos exercícios de 2024 e 2025, os contratos teriam ultrapassado R$ 79 milhões.
O volume financeiro também foi confrontado pelos investigadores com a estrutura física e operacional do empreendimento.
Segundo o MPCE, a empresa está instalada em um imóvel de porte praticamente residencial, considerado pelo órgão incompatível com a dimensão dos contratos identificados.
As investigações buscam agora esclarecer as contratações, a execução dos serviços e o caminho percorrido pelo dinheiro.
MAIS DE R$ 4 MILHÕES EM SAQUES
Outro dado que entrou no radar do Gaeco é a movimentação de dinheiro vivo.
De acordo com o MPCE, foram identificados nos últimos meses saques que, somados, ultrapassaram R$ 4 milhões em espécie.
Os investigadores procuram identificar a origem e, principalmente, a destinação desses recursos.
OPERAÇÃO APREENDE CERCA DE R$ 430 MIL
Na Operação Saque a Descoberto, o MPCE cumpriu seis mandados de busca e apreensão contra três investigados, entre eles um empresário e um secretário municipal de Paracuru.
As diligências ocorreram em Fortaleza, Paraipaba e Trairi.
Foram apreendidos dispositivos eletrônicos, além de R$ 254 mil, € 26 mil e US$ 6 mil em espécie. De acordo com os valores divulgados, o total corresponde a aproximadamente R$ 430 mil.
Os equipamentos e documentos recolhidos deverão ser analisados e poderão subsidiar novas etapas da investigação.
INVESTIGAÇÃO CONTINUA
A Operação Saque a Descoberto não terminou com o cumprimento dos mandados. O Gaeco dá continuidade às investigações para esclarecer a movimentação milionária da empresa, os contratos relacionados a eventos e a eventual participação dos investigados no possível esquema.
O ponto que chama a atenção permanece sendo a diferença entre os números: de um faturamento anual declarado de R$ 12 mil para uma movimentação de aproximadamente R$ 8,9 milhões em somente oito meses, além de contratos que teriam ultrapassado R$ 79 milhões em dois anos.
O Ministério Público busca agora explicações para essa evolução financeira e para o destino dos valores movimentados.